MÃOS CHEIAS DE LUZ

Foto: Julyane Stefane.
Há pouco tempo, o trabalho de parição era quase que exclusivo das parteiras, cidadãs experientes que assistiam e auxiliavam na concepção, em palavras mais simples, mulheres que ‘pegavam’ meninos.
Em se tratando de um momento tão único e especial, o nascimento de um filho, era importante alguém em quem se confiasse, que trouxesse a tranquilidade necessária, que simbolizasse o poder de Deus nas mãos...
O cenário era peculiar. A mãe prestes a dar à luz, familiares apreensivos, as palavras atenuantes, os gemidos de dor, as orações e as preces aos santos, os gestos generosos de uma parteira, o personagem central com seus utensílios, água quente, toalhas secas e os saberes colhidos na roseira da experiência.
Ser parteira é uma dádiva e um ofício sui generis. Eis o exímio que marcou a vida da luís-gomense Dona Lucília Fonseca, também conhecida pelas expressões “Mãe de Luís Gomes”, “mãos de anjo” ou simplesmente, “mãos de luz”, a parteira mais famosa e mais distinta da região.
Dádiva de Bom Jesus, Lucília viveu vindouros anos na Rua do Cachimbo. Nascida no Sítio Oliveira, em 25 de março de 1923, trouxe ao mundo mais de seis mil crianças, num trabalho incansável, convicto e de grande felicidade.
Pelos quatro cantos da cidade, a dedicada enfermeira, a “mãe de Luís Gomes”, dedicou-se de corpo e alma, por quase 50 anos, na honrosa missão de parteira. Não tinha dia e nem hora para atender aos chamados, não tinha a tecnicismo científico, mas era experiente, corajosa e determinada.
Certamente, uma mulher de valor inestimável, de capacidade e sabedoria, que trouxe muitas bênçãos para mães, filhos e familiares. Meticulosa, anotava cada parto realizado com informações específicas. Cativante, se tornou madrinha e comadre de muita gente espalhada pela cidade, campo e serranias. Altruísta, não media esforços para oferecer o melhor aos seus “afilhados”.
Com o passar dos anos as coisas mudaram. Poucas são as parteiras da arte de “botar gente no mundo”, que aprendem o ofício com a tradição que atravessa o tempo de geração em geração, a partir das narrativas orais e pelo pragmatismo.  
Há quem diga ser algo ultrapassado, sem valor e antiquado. Pelo contrário, é uma função magnifica e de grande honraria, pois representa um conhecimento tradicional, construído por muitas mãos e mentes, sendo, pois, consequência de uma sabedoria holística.
Desse modo, todas as parteiras merecem o nosso carinho e reconhecimento, por serem instrumentos de paz, por acolher a vida, por doar a vida pela vida. Uma atitude de grande compromisso, responsabilidade, ética, fé e de respeito à vida.
Portanto, Lucília, a senhora, que hoje tem mais de noventa anos, merece os mais efusivos aplausos, mais e mais. Toda e qualquer homenagem não se aproxima da grandeza de sua história de vida, assim como outras conterrâneas. À senhora, o nosso abraço, a nossa admiração e o nosso reconhecimento. Que Deus te abençoe, ilumine, proteja, guie, juntamente com todos os seus familiares, amigos e afilhados!