LUÍS GOMES: MÃOS QUE CURAM PELA FÉ

Não seria possível considerar a identidade e a memória da coletividade luís-gomense sem citar o exercício da fé, a prática cultural e a medicina popular exercida pelas rezadeiras ou benzedeiras da Serra do Senhor Bom Jesus.
A práxis da benzeção ou benzedura, mais comum entre as mulheres, remonta os primórdios da história social e cultural do município de Luís Gomes, sendo à época a principal forma de combate à doenças, enfermidades e desequilíbrios que acometiam os munícipes.
Esse costume histórico advém da cultura indígena e, principalmente, da africana, a partir do processo de colonização do país, que se espalhou pelas mais diversas regiões. Personagens da cultura popular, as benzedeiras são verdadeiras guardiãs da memória (SILVA, 2009), com sua linguagem, ritos, costumes, ensinamentos, gestos e formas de intervenção que são passados de geração em geração, contra males do corpo e do espírito.
Mediadoras entre o domínio do sagrado e do profano (MELLO, 2013), as rezadeiras possuem repertório material e simbólico, com práticas rituais e processos corporais específicos, corroborando que toda ordem sagrada é uma reafirmação contra o caos (BERGER, 1967).
Com certa equivalência às “antigas feiticeiras das aldeias europeias, que foram “perseguidas, oprimidas, punidas, rejeitadas e algumas até condenadas (...) pelos Tribunais da Inquisição da então Igreja Católica” (COSTA, 2011), as benzedeiras cumprem um catolicismo popular importante na mediação, percepção e intervenção de cura (MELLO, 2013) das pessoas.
Com súplicas, rezas, preces, ramos nas mãos, imagens de santos, rosários, oratórios, sinais de fé e poder somático da atenção (Idem, 2013), buscam trazer o equilíbrio material ou físico e espiritual, na esperança daqueles que almejam a cura do corpo e da alma através da fé. É justamente nesse ponto que Oliveira (1985, s.p.) esclarece a missão das benzedeiras:

É na condição de resistência que a benzeção deve ser vista. Não como um resquício de formas antiquadas de curar, algo já superado pela ciência moderna (...). Deve ser vista como uma singela contribuição para um novo projeto de mundo. Contribuição vinda de um grupo de pessoas que está ao lado dos oprimidos, identificando-se com a sua luta e com os seus sofrimentos. E mais do que isso, dando a eles uma explicação e um sentido próprio.

Em Luís Gomes muitos são os que se comprazem em benzer e rezar, prestando um incansável serviço social, espiritual e fraterno na construção de uma sociedade mais equilibrada, feliz e pacificada.
Dentre eles citamos: Dona Madalena, Dona Justina de Zé Cariri, Dona Juliana de Seu Monteiro, Vicente Antunes, Joaquim de Sena, Dona Adrina da Rua Antônio Augusto, Sra. Anália, Chica de Antônio Gomes, Dona Luci, Dona Avani, Zé de Madinha, Chico Carolina, Seu Nenéu, Fatinha de Seu Wilson, os irmãos Nazoni, Aparecida e Gorett Gomes, Dona Sabina do Conjunto Sol Nascente, Dona Totó Lourdes de Pedro Xéu, Seu Tonheiro, Tiquinha de Zé Terto, Maria de Tori, Dona Francisca de João Felipe, Rita Preta da Rua do Campo, Julita da Caixa D’água, dentre outros.
Os gestos e rezas quase nunca são ensinados ou aprendidos, porque são revelados pelo divino. Raramente se revela as orações e rezas. Com o ramo nas mãos, a rezadeira faz o sinal da cruz no doente e com gestos e balbucios inicia o ritual. Se a planta murchar, é sinal que as folhas capturaram o maligno. Reza-se por diversos motivos, mas principalmente contra o mau-olhado, espinhela caída, briga de marido e mulher, ou quebranto, depressão, inveja, cansaço, dores em geral...
Até a Literatura de Cordel cita o trabalho das benzedeiras. É o caso de “Padre Cícero e a Cura de um Louco”, de Abraão Batista; “A Dor de Dente do Matuto”, do Poeta Domingos Manuel; e “A Oração do Fechamento de Corpo que Padre Cícero Deu a Lampião”, de Hamurábi Batista.
As benzedeiras ou rezadeiras são uma expressão da cultura e, em especial, dos costumes da vida e do povo luís-gomense, sendo um patrimônio cultural. Porque, como diz Morim (2002, p. 35): a cultura é o “conjunto de hábitos, costumes, práticas, savoir-faire, saberes, normas, interditos, estratégias, crenças, ideias, valores, mitos, que se perpetua de geração em geração, reproduz-se em cada indivíduo, gera e regenera a complexidade social”.  
Desse modo, o vezo das rezadeiras, pelo poder do sagrado, além de provocar a cura de doenças, reais ou imaginárias (LARAIA, 2009), faz parte ativa das tradições culturais da coletividade, tendo em vista a eficácia simbólica para seus membros.

REFERÊNCIAS
BERGER, P. El Dosei Sagrado. Buenos Aires: Amorrurtu, 1967.

COSTA, G (2011). Rezadeiras do Rio Grande do Norte. In: Jurema Sagrada Ciência do Acais. Disp. em < http://juremasagradacienciadoacais.blogspot.com.br/2011/08/rezadeiras-do-rio-grande-do-norte.html>. Acesso em 15 set. 2016.

LARAIA, R de B. Cultura:  um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

MELLO, C. A. A. de. Percepção, intervenção e cura: sobre modos somáticos de atenção e a prática da benzedura. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 15, n. 18, p. 57-75, ene./jun. 2013.

MORIN, E. O Método 5: a humanidade da humanidade (Silva, J. M., Trad.). Porto Alegre: Sulina, 2002.

OLIVEIRA, E. R. O que é benzeção. São Paulo: Brasiliense; 1985, s.p.


SILVA, C. S. Rezadeiras: guardiãs da memória. In: V ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, Faculdade de Comunicação/UFBa, Salvador-Bahia, 27 a 29 de maio de 2009.