SEVERINO RAMOS E POETA

Luís Gomes tem grandes desbravadores da poesia, especialmente aquela menos clássica e mais popular. Uma linguagem de estética contemporânea, de beleza, de lirismo e inspiração. Nomes como Adolfo Paulino de Figueirêdo, Joaquim Alves de Fontes (Joaquim Bem Vinda), José Pinto, Sebastião Bento de Souza, Marcos Antunes de Andrade (Seu Marcos), Francisco Gezinildo de Paiva, Francisco de Assis (Xeba), Maria do Socorro Bento, entre outros.
Nos porões da história de Luís Gomes, houve cenas, imagens e palavras que ficaram eternizadas. A linguagem e seu poder. Não tem a ver com a aristocracia ou a fidalguia dessas serranias, mas com personagens simples, mas ricos de espírito e de criatividade.
Essa passagem refere-se a duas figuras emblemáticas da cultura popular de Luís Gomes, inseridas no “baixo clero”, que tomam lugar e altivez em sua simplicidade e generosidade: Manoel Florentino de Andrade e Severino Ramos. Pessoas afiguraves, admiráveis. Poetas desatinados, personalidades irreverentes, figuras metafóricas, mas homens dignos, cidadãos de bem e da alegria desavisada.
A crônica que citamos remete a década de 70, por ocasião das festividades de julho. Época em que o quadrante norte do Mercado possuía 13 portas de entrada e um coalescente bucolismo. Em Luís Gomes, no bar de Seu Osório, onde havia uma grande palhoça, se reuniam personalidades locais, filhos ausentes, estudantes, chistosos e curiosos, para se divertir e escutar os discursos poéticos de uma dupla afinada. Manoel Florentino de Andrade, popularmente chamado de Poeta ou Manoel Chato, proferiu:
Eu sou um “tirano a boia”
Besouro do Piauí,
Onde finco meu ferrão
Vejo a matéria cair.
O termo tirano a boia é o nome dado, no Pará, ao escaravelho ou rola-bosta. Por sua vez, Severino Ramos, mais conhecido por Ramos, não deixou barato e, de imediato, retrucou com posteriores aplausos e risos:
Você não é “tirano a boia”
Nem besouro do Piauí,
Você é um rola-bosta
Desses besouros daqui.
A cultura, a arte popular é assim, se expressa com astúcia, com criatividade, com vigor, com emoção. Tira as pessoas do lugar comum e alegra com o inusitado, com força de expressividade, com o entusiasmo do contista. Genuinamente brasileira, genuinamente luís-gomense. Uma forma de imortalidade. Nas palavras de Albert Camus: “Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro”.
Numa outra ocasião, Severino Ramos, por sua vez, protagonizou uma cena memorável, mas fundamentalmente hilária, como de costume. Tudo aconteceu na casa de Jáder Torquato, anfitrião de muitos convidados, uma característica marcante de sua receptividade, fizera uma representação para a visita ilustre do então candidato a governador, o deputado Djalma Marinho.
Os convidados se deliciavam com a mesa farta e as conversas propalaram pelo ambiente festivo. Discursos, recomendações, agradecimentos. Eis que surge o inesperado, capaz de quebrar o gelo ou até mesmo um iceberg. Ramos, entorpecido e encorajado pelas meiotas de volúpias, aproximou-se subitamente do deputado e lhe conferiu as seguintes palavras: “Governador!? Por que você não deixa essa oportunidade pra outro mais novo de que o senhor? O senhor já tá assim meio parecido com uma raposa ‘veia’ que tá com mais de cem anos que come galinha com uma cara só!” Mesmo retaliado, o ilustre candidato sorriu pelo canto da boca, como quem fica desconcertado com uma declaração atípica e tão direta. Pouco depois se despediu e foi embora.
Depois da dispersão da comitiva política ficou Jordan Torquato, Neto de Gaudêncio, Babu, Luciano Torquato, Wilson de Sinhá, Lázaro e mais alguns na aprazível convivência, com histórias, sorrisos e gracejos. Para fechar a conta do dia, Ramos, já queimado, começou a fazer previsões: “Esse menino de Dr. Jáder e de seu Gaudêncio vão ser o futuro de Luís Gomes”. Nisso pedia-se a Wilson para comprar uma ‘meiota’ de cachaça. E logo depois, lá ia de novo trazer mais uma e outra...
Wilson incomodado com os elogios feitos para os meninos dos Torquato ficava a perguntar para Ramos o que ele seria: “E eu, o que vou ser?”. Desconversava. Mais adiante a réplica da pergunta e a tréplica. Finalmente, Ramos ‘profetizou’: “Você não se preocupe com seu futuro, que você tá seguro. Com esse povo no poder você vai ser a mesma coisa. Seu futuro tá feito!” Wilson insistiu: “E o que vou ser?”. Ramos sentenciou: “O mesmo cavalo de meiota!”.
Naquele instante, não havia interdição que cessasse as gargalhadas da moçada.
O tempo voa... Dizia Lulu:
Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
E não há tempo que volte amor
Vamos viver tudo que há pra viver

Vamos nos permitir.

Texto "Severino Ramos e Poeta", que compõe o livro "Luís Gomes: a terra e o povo de Luís Gomes entre prosa e poesia".