HISTÓRIAS DE LUÍS GOMES

A terra pátria é um lugar de amor terno e inquebrantável, cuja ligação é de afetividade, de pertencimento, de recordações... Luís Gomes tem sido um amor à moda antiga, de viola e de canção, de serenata e de paixão. Ou um amor contemporâneo, de modernidades e contradições. De qualquer forma um amor que o tempo não apaga. Sentimento estimulado pelo passado e pelo presente. Celeiro de boas histórias, pinceladas de literalidade, com figuras e personalidades inesquecíveis.
Com vistas ao passado, do provérbio citadino, conjecturam uma famosa resenha a respeito dos Srs. Izidro Pereira, Antonio Aquino e Gilberto (genro) de Camilo.  Há muitos anos, Luís Gomes não tinha nenhum “carro de linha”, mas havia interessados para fazer suas viagens para Sousa, Pau dos Ferros, Cajazeiras. Pois bem. Antonio Aquino se dispôs a comprar um jipe para atender a população, mas teve que pegar dinheiro emprestado com Izidro. Este prontamente cedeu ao pedido. Antonio Aquino comprou o automóvel e arrasou, ia tudo “de vento em popa”.
Gilberto vendo o sucesso do conterrâneo, disse: Vou comprar um jipe também. Contactou empréstimo a Izidro, mas antes disse ao agiota que iria a Juazeiro do Norte escolher o modelo, depois pegava o dinheiro. Enquanto isso, Antonio Aquino sentindo sua “linha” ameaçada, disse a Izidro: Eu vinha pagando o empréstimo, certinho, todo mês? Izidro respondeu: Ave Maria, o nosso negócio tá mais justo que boca de bode. Antonio Aquino prosseguiu: Olha, vou passar dois a três meses sem pagar, porque o negócio de viagens não tá dando não!
Quando regressou Gilberto de Camilo, foi pegar o cash, para comprar um jipe amarelo. Seu Izidro, porém, argumentou que era um homem muito supersticioso e que por conta de um sonho não poderia mais emprestar a grana. O sonho era o seguinte: Eu sonhei que estava de frente para um açude e vinha um cachorro com quilo de carne na boca. Ao olhar para dentro d´água ele viu outro cachorro também com um quilo de carne na boca. O que o animal faz? Deixa a carne no chão para tomar a do outro, e nisso vem um terceiro cachorro e leva o pedaço que ele havia deixado no chão. E nisso a carne deu em nada. Portanto, por causa desse sonho não vai dar mais certo. Pode ir embora! E assim, Antonio Aquino, estrategicamente, evitou a concorrência.
Por volta de 1958, rememora-se outro caso envolvendo Izidro Pereira. Assíduo ao pequeno comércio de Honório Bernardino, consegue convencê-lo a aumentar o estoque e, consequentemente, a clientela da zona rural. Só que o comerciante não tinha capital para tal desígnio. Izidro, por sua vez, se prontifica a emprestar o recurso ao amigo, desde que fosse recebê-lo em sua casa, em dia e horário predeterminados. No dia combinado, Honório chegou à casa de Izidro atrasado, por conta dos atendimentos mercantis. Izidro, contrariado, decretou: Você quebrou o trato para vim buscar, imagine para vim deixar! Logo, o negócio desvaneceu.
Uma outra crônica que citamos remete a década de 70, por ocasião das festividades de Julho. Em Luís Gomes, no bar de Seu Osório, onde havia uma grande palhoça, se reuniam personalidades locais, filhos ausentes, estudantes e curiosos, para se divertir e escutar os discursos poéticos de uma dupla afinada. Manoel Florentino de Andrade, popularmente chamado de Poeta, proferiu:

Eu sou um “tirano a boia”
Besouro do Piauí,
Onde finco meu ferrão
Vejo a matéria cair.
           
O termo tirano a boia é o nome dado no Pará ao escaravelho ou rola-bosta. Por sua vez, Severino Ramos, mais conhecido por Ramos, não deixou barato e, de imediato, retrucou com posteriores aplausos e risos:

Você não é “tirano a boia”
Nem besouro do Piauí,
Você é um rola-bosta
Desses besouros daqui.

Ainda na década de 70, a feira livre, que começava mais cedo (05 horas da manhã), tinha cada espaço do Mercado Público muito disputado. Às 10 horas, quando tocava a chamada da missa, o mercado era fechado e todos os que estivessem dentro eram obrigados a sair, inclusive os comerciantes, avisados pelas batidas de um martelo num pedaço de trilho. As portas eram fechadas e só eram reabertas no final da missa. Na reabertura alguns “moleques” roubavam algumas bugigangas.
A religiosidade constituiu-se um dos pilares fundamentais da história e da identidade de Luís Gomes. Nessa esfera, dentre os muitos casos, um fato foi marcante para os devotos de Senhora Santana e, especialmente, para o Senhor Padre Raimundo Osvaldo Rocha, uma figura extraordinária e imortal para essas plagas. O bispo que antecedeu Dom Mariano Manzana não admitia a continuidade das atividades sacerdotais de Padre Osvaldo, devido suas recentes atividades políticas. Com isso, manteve-se afastado por ordens do superior, que diziam: Padre Osvaldo só volta a celebrar em Luís Gomes se eu morrer ou me mudar.
Entretanto, havia uma forte pressão popular para o seu retorno, além das inúmeras orações dos fiéis. Então, no intuito de amenizar os ânimos, o bispo afirmou que o pároco poderia voltar às atividades, mas numa outra comunidade. A notícia chegou e atingiu como uma flecha. Diante disso, em reunião realizada na Casa Paroquial, Padre Osvaldo afirmou, diante dos presentes, com tom convicto e emocionado:

“Ou celebro em Luís Gomes, na Paróquia de Senhora Santana ou nunca mais. Aqui em Luís Gomes em tenho uma família! Aqui é minha casa!”.

Outro caso curioso, dito não ficcional, aconteceu com o ex-prefeito de José da Penha, Osório Estevam. Dizia ele que assim como Luís Gomes tinha três prefeitos com uma letra só, isto é, Jader, Gentil e Joaquim, da mesma forma era ele e seus irmãos: Osório, Ocrido (na verdade, Euclides) e Ozébio (Eusébio). Essa é uma prova que o embate entre o coloquial e a norma culta pode ser célere e caricato! De qualquer forma, transformou-se numa anedota presente no discurso de alguns prosadores.
Ainda tem destaque nas entrelinhas da história luisgomense, presente no imaginário popular, o violeiro Chico Catingueira, cifrado por alguns de “O Trovador das Alterosas”. Evidente que era uma amante da poesia, a ele era atribuído os seguintes versos:

Lá vem a lua saindo
Redonda como uma vara
Quando bebo uma cachaça
Fico danado de raiva.

E as histórias continuam... Na década de 80, a Banda de Música Paroquial Dr. Vicente Lopes foi participar de um Festival em Natal/RN, chegando a ganhar, inclusive, o primeiro lugar no concurso. Faziam parte do grupo Pedro Bernardino, Assizão, Miguel Cupira, Raimundo, Antonio de Anízio, Zé Peruca, Bolinha, Zé Crisóstomo, entre outros.
Mas, um fato curioso notabilizou-se! O integrante Pedro Bernardino antes da apresentação, inesperadamente, perdeu os instrumentos, no caso os pratos, e mesmo assim não queria ficar de fora de jeito nenhum, naquele evento vultoso. Então, o maestro teve que encontrar uma solução, dizendo: Pedro, você vai ficar ao fundo só fazendo o gesto, como se estivesse tocando. E lá foi Pedro, só no gestual. Ao encerrar a apresentação, o julgador achou curioso o fato e comentou: Até hoje eu nunca vi uma banda com dois maestros!
Conta-se também que a senhora conhecida por Dona Quitéria, doméstica por anos na casa de Gaudêncio, tinha alguns filhos, muitos deles ela nem sabia, de fato, quem era o pai. Após sua morte, um dos seus filhos, Zé de Quitéria, resolveu se registrar, mas quem seria o progenitor?
Ao chegar ao cartório municipal, Zé falou para Senhorzinho, o atendente: Eu quero me registrar e, é o seguinte, disseram que meu pai é o Senhor! De súbito, veio a resposta: Que conversa é essa, rapaz! Sentindo-se contrafeito, fugiu pela tangente dizendo ao jovem: Na verdade, o seu pai é Valdimiro Saturnino. Zé de Quitéria foi à busca da indicação. Ao saber da história Valdimiro ficou sem acreditar e “tocou o barco para frente”, afirmando ser outra pessoa: Conversa é essa! Seu pai é Gaudêncio! Na presença deste último foi novamente despistado, com o endosso de que o pai verdadeiro seria Senhorzinho, o chefe do cartório. Eis que se fecha o circuito! Senhorzinho vendo que o pobre do Zé de Quitéria não encontrava solução, que na sua pessoa era indicada a paternidade, resolveu acabar com aquela novela, colocando o nome do pai: Pai Desconhecido.
Na pacata cidade de Luís Gomes havia um sujeito tido, por muitos, como louco. Quase uma metamorfose ambulante. Com jeitos desatinados João Dantas, mais conhecido por Labralda ou Labrado, nascido no Sítio Araras, também deixou sua marca na cotidianidade serrana. Segundo Gaudêncio Torquato, em linhas do livro “Gaudêncio, meu pai”, Labralda, após alguns goles de cachaça, declamava versos da mais genuína poesia popular:

Beber não é defeito
O homem sabendo beber
Sendo bem considerado
Sabendo o que vai fazer
Porém, não sendo
Fica veloz como vento
Dá peido como jumento
Quer ser valente sem ser.

Diz-se também que nos ensaios para as gravações do filme “As Trapalhadas do Lampião”, ocorreu uma cena engraçadíssima. Naquele momento, pediram a Bonfim Alves, estrela da produção cinematográfica, para dizer: Eu sou Lampião, o maior cangaceiro do Cangaço! Depois veio a gravação e Bonfim retumbou: Eu sou Lampião, o maior cangueiro do Cangaço!
Há também um personagem da história de Luís Gomes que se destaca, no cenário nacional, pela sua força empreendedora, pela sua criatividade empresarial e pela força das palavras. João Claudino, em 25 de julho de 2012 visitou a FUNFFEC, rodeado de amigos, conterrâneos e funcionários, se mostrou convicto do impacto positivo da entidade (que tem o nome de sua mãe), sendo um espaço em que a sociedade tem a oportunidade de se tornar mais dinâmica e produtiva.
Atento aos detalhes observou todas as dependências, prestigiou apresentações locais e, por fim, fez um rápido discurso. Falou da vida, dos negócios, da educação, da fé, do otimismo, da história. Mas foi numa conversa informal, junto aos funcionários que o empresário disse uma frase rememorável: “Quando perguntarem pela Fundação não digam que é de seu João Claudino, mas de vocês!” Uma notória expressão de reconhecimento de um trabalho realizado. Seu João mostrou a grandeza de espírito, de um filho luisgomense.
Muitas são as histórias memoráveis, que nos enche de brilho a retina, revelando o valor, a criatividade, a engenhosidade e a perspicácia de nossa gente. Evidentemente, essas linhas são mais do que a expressão do cotidiano, do cômico, do inusitado, pois também são marcas da memória e da identidade da sociedade luisgomense, pois “a necessidade, a natureza e a história não são mais do que instrumentos da revelação do Espírito” (Hegel). Speculum vitae magna fabula!
Se mais tempo houvesse, mereciam capítulos a parte a discursividade de José Fernandes, a pragmática de Joca Claudino, o compêndio de vida de Quinco Barbosa, a sagacidade de Otílio, o ensaísmo cômico de Bonfim, as aventuras de Lavrado, a veia poética de Xeba, a antologia política e cultural... Padre Osvaldo mereceria um calhamaço. Mas, diante da brevidade que o momento exige, referendamos algumas boas histórias, com a colaboração generosa de alguns amigos, como Jackson Alves Bezerra, Raimundo Nonato da Silveira, Antonio Fernandes do Nascimento, Juliana Fernandes Gomes e Nilberto Costa de Sousa.
Assim, é importante que a comunidade valorize sua própria história, pois sem ela podemos ter um povo “demente”, sem raízes, sem patrimônio! Já dizia a célebre frase, “um povo sem história é um povo sem memória”. A partir do momento que nossa história é valorizada, ganhamos referências e valores, aprendizagens e ensinamentos.

Crônica que compõe a Revista FUNFFEC, Ano II, nº 2, Luís Gomes/RN, Julho 2014. Por Antonio Roberto Fernandes do Nascimento, escritor, educador, historiador e crítico social.