COM A VOZ O POVO LUÍS-GOMENSE

Sob um clima bastante tenso, a Câmara de Vereadores de Luís Gomes votou nesta sexta-feira (26), em reunião extraordinária, a Lei de Diretrizes Orçamentária, LDO, para o ano de 2018.
O ponto mais debatido tanto nessa sessão, como nas anteriores, foi o inciso l do Art 34. Nele, o município pede para reestruturar o Plano de Cargo e Carreira do Município e cita o Art 169 da Constituição Federal.
Por seis votos a três, a Câmara atendeu o pedido do executivo e deu poderes para que o plano seja alterado caso o executivo deseje.
Os três vereadores que votaram contra foram os mesmo que na última reunião pediram que o projeto passasse por apreciação popular, mas foram vencidos pela maioria.
Inclusive um laudo técnico feito a pedido do Sindicato dos Trabalhadores para tentar barra as mudanças, mas infelizmente de nada adiantou.
O grupo da situação, que é formado pela presidente Maria Gerusa, Marta Brito, Carlos Augusto (Tututa), Francisco Iranildo, Gean Batista e Francisco de Assis, o Cizin, votaram e abriram caminho para que o executivo, se possível, possa até demite efetivos e concursados que forma o quadro de funcionários do município.
Mas a sessão também teve momentos tensos e nervosos. Um pequeno grupo de professores, que de certa forma foram pegos de surpresa, chegaram na reunião logo após o LDO ter sido votada.
O fato de não ter visto a votação, uma das professoras contestou e foi recebida de forma não muito agradável pelos vereadores da base da prefeita Mariana e do vice Luciano.
De acordo com áudios que circulam na internet, o debate acorreu entre a presidente da casa e uma funcionária que não está satisfeita com a mudança que pode deixar pais de famílias desempregados no futuro.
Como num governo de ditadura, até a possibilidade de chamar a polícia para acalmar os ânimos foi cogitado por alguns dos edis.
O caso só não foi adiante porque o vereador José Nunes Segundo interviu e explicou que a Câmara estava diante de pessoas conhecidas e não precisa chegar a esse ponto de convocar a polícia para resolver os impasses entre a presidente e professora.
O caso mais grave foi o do vereador que falou para seus pares que ali eles deviam pensar neles e não na população. A que ponto chegamos.
Texto Elton Moreira
A gente tem este tipo de representante. É por essas e outras que essa classe política não me engole nem eu os engulo!
Comentário de Paulo Régio.
O santo e o demônio... Fui agredida, isso não conta? Vamos ver o outro lado dos fatos. Lugar de doido é em outro lugar.
Comentário da Vereadora Gerusa.
A pessoa escuta um áudio ai a pessoa faz: mas você já foi empregada aqui rsrs aí a outra pessoa: empregada porque passei no concurso. Mais engraçado ainda é uma pessoa querer receber uma diária de 800 conto, sendo que alguém trabalho o mês inteiro pegando pesado e num (sic) recebe nem isso, às vezes, tem que ter muito óleo de peroba pra passar nessas cara de pau mesmo.
Comentário de Léo Lacerda.
O interessante é que tem vários professores no grupo e não espoe a sua indignação. Sou professora em Pau dos Ferros, graças a Deus somos respeitados. Cara “colega” Gerusa vc (sic) e os demais pagará (sic) pela semente plantada.
Comentário de Sheilanny Fernandes.
Também não gostei da atitude da câmara de vereadores não! Isso não é legislar, isso é servir ao executivo! Espero que a sociedade não se der por vencida, afinal, pra que existe o ministério público? Contestem na justiça esse absurdo, senão daqui a pouco vamos ser transformados numa Coréia do Norte.
Comentário da Zé Moreira.

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PREGADORES FESTA SANTANA 2017

Luís Gomes/RN – Com o tema “Sant’Ana, genitora raiz: Da tua família se falará por todo o mundo”, a Paróquia se organiza para preparar uma grande e bonita festa de fé, comunhão, partilha e esperança.
As equipes estão em ritmo acelerado para deixar uma mensagem inesquecível do amor do Pai e dos avós do Cristo Redentor.
Em reunião realizada na última quarta (24), no Salão Paroquial, com as equipes da Festa de Senhora Santana 2017, o Padre Francisco Jorge Pascoal divulgou os padres que farão as reflexões no novenário desse ano. Eis os pregadores:
Dia 16 de julho de 2017: Padre Possídio Lopes – Paróquia de Pau dos Ferros/RN.
Dia 17 de julho de 2017: Padre Valdeci Donato – Paróquia de São Miguel/RN.
Dia 18 de julho de 2017: Padre Dian Carlos de Araújo – Paróquia de Assú/RN.
Dia 19 de julho de 2017: Padre Roberto Vieira Nunes – Paróquia de Vitória de S. Antão/PE.
Dia 20 de julho de 2017: Padre Francisco Davi França – Paróquia de José da Penha/RN.
Dia 21 de julho de 2017: Padre Erivam Maia – Paróquia de Governador Dix-Sept Rosado/RN.
Dia 22 de julho de 2017: Diácono Júnior – Paróquia de Serra do Mel/RN.
Dia 23 de julho de 2017: Padre Gláudio Fernandes Costa – Paróquia Menino Jesus, Mossoró/RN.
Dia 24 de julho de 2017: Padre Ivan dos Santos – Paróquia de São João, Mossoró /RN.
Dia 25 de julho de 2017: Padre Rierson Carlos – Paróquia de N. S. de Fátima, Mossoró/RN.
Dia 26 de julho de 2017: Dom Mariano Manzana – Diocese de Mossoró/RN.
Prepare-se para a Festa e celebre sua fé e devoção a Nossa Senhora Sant’Ana!

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A DEBULHA E OS PIOLHOS

Luís Gomes/RN – Há algumas décadas a sociedade luís-gomense se situava num contexto peculiar, com núcleos familiares mais definidos, com um ritmo funcional simples, distante de aparatos e mecanismos tecnológicos, num cenário com ares bucólicos e de acentuada placidez.
A urbanidade de outrora rutilava uma estação de serenidade, uma aurora provinciana, tipicamente interiorana, agrícola, o povo em sua lida diária, os afazeres primários davam o tom e o tino na cotidianidade.
A vida simples daquela época nos traz referências importantes para a hodiernidade, para os dias atuais. A debulha é uma matéria doutrinal. Na tarefa, por exemplo, da retirada da casca do feijão, uma unicidade familiar se estabelecia, todos juntos no mesmo propósito, na partilha das dificuldades e do alimento, no aconchego da companhia e da conversa calorosa, nos ensinamentos e histórias contadas. E antes de dormir, a família orava unida...
A simbologia da debulha talvez seja similar a outras atividades tradicionais da Serra do Senhor Bom Jesus. O trabalho duro, mas compartilhado nas lavouras, uniam pais e filhos, lado a lado, suor e calos uníssonos. Os expedientes nas “bulandeiras” e nas casas de engenho representavam templos de glória, a festa da fartura, tempo de colher o que fora plantado. A compreensão da vida, do amor, da irmandade, da doação, da cooperação, da comunhão na sua forma mais natural e concreta.
Por incrível que pareça, os piolhos também tinham sua importância. Assim como disse o Pr. Mário Botão, a pedagogia dos piolhos também aproximava pais e filhos, como era bom ter piolhos. O filho se deitava no colo terno da mãe, sentia o cuidado e a atenção, enquanto era acariciado por mãos ágeis e incansáveis. O filho era tocado pela mãe, momentos tão preciosos. Muitos lares falta o toque, o abraço, o elogio, respeito, palavras. Por isso, mesmo repulsivo, quanta falta faz os piolhos na presente geração...
A vida era árdua, mas deveras misericordiosa. Tudo acontecia num outro ritmo, em que a percepção, a atenção, a presença eram coisas marcantes. Quase sem pressa as coisas aconteciam. De repente, a pequena cidade serrana foi se modernizando, engolida pela revolução tecnológica e a entusiasmada globalização. O boom da internet nos anos 90. Como um click o mundo se transformou. Pouco a pouco fomos percebendo que a família enfrentaria novos desafios, lacunas emocionais e relacionais seriam abertas, em alguns casos, escancaradas.
Aos poucos a debulha, as histórias nas calçadas e até os piolhos foram desaparecendo. A força do entretenimento, atividades e ócios passaram a preencher todos os espaços... Brincar de roda virou excentricidade, raridade. E onde devem estar dedo mindinho, seu vizinho, pai-de-todos, fura bolo e cata piolho?
Hoje uma das cenas mais corriqueiras em um lar é os pais com a tevê ligada (anestesia cerebral, massificação e falta de diálogo) e os filhos noutro ambiente com os celulares e dedos frenéticos. A cena poderia ser diferente, mas o que se percebe é a falta do diálogo, o distanciamento, o estranhamento, a ausência do olho no olho...
Uma pesquisa recente mostrou que aproximadamente 87% dos jovens preferem se comunicar por mensagens de texto do que pela velha modalidade do cara a cara. As gerações Y e Z são expert em tecnologias, com forte interatividade virtual, com perícia multitarefa, mas com diversos sinais de isolamento, distanciamento, inabilidade para resolução de conflitos, ansiedade e sensação contínua de incompletude.   
Os bits, bytes e pixels estão substituindo as pessoas? Os seres humanos estão se transformando em robôs virtuais? Até aonde iremos com a “supremacia” do ciberespaço? Precisamos debulhar mais. Precisamos de piolhos. Precisamos nos relacionar mais no mundo real...
É preciso dizer para nós mesmos: Navegue menos, viva mais!

LUÍS GOMES RN: PASSANDO A PALAVRA

Que time é esse que está jogando com o nome do 26 de julho? Era para ser outro nome, só assim não manchava a grande história do futebol da nossa cidade (Laércio Júnior).
Esse 26 de julho é só um genérico, nós fomos tetracampeão do já instinto Copão Cultura (Antonio Fermino).
Enquanto não mudar a forma de pensar dos que estão no comando, vai ficar nisso aí para pior, vocês que estão no meio do futebol poderia (sic) discutir a respeito de uma melhora ou poderia dar chance a quem nunca teve, belo texto (Hugo Rafael).
O 26 ainda não conseguiu ganhar a primo, e pelo jeito que vai tá cada dia mais distante desse título que ainda falta (Caiky Fernandes).
O 26 de julho era timão na época que tinha João Preto, camisa 10 do time, quem se lembra? (Carlos Meneses).
O futebol de Luís Gomes tá todo desmantelado. Se tem jogo no domingo os jogadores começam a beber no sábado, chega o dia do jogo vão jogar tudo de ressaca. Entra em campo não joga 20 minutos pede para sair. Como é que vão conseguir alguma coisa. Falta disciplina no futebol luís-gomense (Rivailson Silva).
O futebol de Luís Gomes está faltando é organização por parte da comissão técnica. A equipe do 26 de julho não tinha organização, tem que ter mais compromisso e honra. A camisa do 26 por onde já passou (sic) vários craques do futebol luís-gomense, vamos ter mais compromisso com a equipe! (Adailton Freitas).
Enquanto não haver organização, força de vontade da comissão técnica do 26 de julho a organizar mais o time e saber preparar o time para uma competição tão grande como é a Primo Fernandes (Matheus Messi).
O futebol luís-gomense é muito injusto, ninguém lembra daquela equipe que foi campeão (sic) de forma invicta dos JENR’s, jogando um futebol brilhante em Natal, poucos daqueles atletas tiveram chance de jogar no 26 de julho, talvez daquele tempo já começava o erro no 26, o medo da renovação (José Carlos).
Essa data da fundação do 26 de Julho, ela foi inventada, que conversa é essa de 1978, a criação desse nome já foi nos anos 80. Parem com isso! Mais uma vergonha! (Parcifal Pereira).
(...)

A POESIA E A CULTURA POPULAR

Luís Gomes/RN – O encontro de pessoas espirituosas e criativas constitui um rincão de boas prosas, mesmo que regado a versos e melodias, o que de encanto tem muita graça e magia. Da reunião entre Joaquim de Bem Vinda, Marta Sobreira, Raimundo Nonato e Caninana, na cidade de Uiraúna/PB, foi o suficiente para que as “portas do céu” da criatividade se abrissem e a força poderosa da poesia roubasse a cena.
Entre os amigos um fato notabilizou-se: a engenhosidade, a esperteza e o olho vivo de Caninana em relação ao comércio, para obter a máxima lucratividade. Mesmo assim, um cidadão de bem. Se preso fosse Caninana teria uma “ficha longa” de transgressões e necessitaria de um defensor irrepreensível. Deixaram a imaginação fluir. A partir dessa suposição, Raimundo Nonato sugeriu a Joaquim que fizesse o papel de advogado para ver se podia soltar o comerciante. Prontamente aceitou e disse que para soltar o amigo, nessa afiguração, seria necessária uma boa estratégia e argumentos irrefutáveis, porque o mais complicado era ele, o comerciante.
Pensou e resolveu: “Não tem jeito, assim, pra soltar Caninana aqui não. Eu vou ter que ir ao céu pra vê se solto lá”. Só que para ir ao céu, o defensor tinha que morrer. O sonho foi a sua chave do céu. E assim se sucedeu:

Eu sonhei um sonho
Que contá-lo nem podia,
Sonhei com uma pessoa morta
E era eu mesmo que morria.
E pra o céu eu subia, subia e subia,
E lá em cima eu olhava
Num controle de um painel
E vi uma reunião como que fosse um coquetel
Me encontrei com São Manuel e pergunto: “É festa?”
Ele me disse: “Só de bebida boa e comida que presta!”.
E eu olhei e vi uma santa desfilando na varanda
E brechava pela cortina e gritava pras outras:
“Abra a porta do céu que lá vem Joaquim Bem Vinda!”
Aí nisso eu me sentava no tribunal de Jesus,
Em um bonito cadeirão
Para salvar todo mundo
Com todos os poderes na mão.
Passei menos de uma hora
Salvei mais de um milhão.
Aí Cristo me pergunta: “Aonde mora o cidadão?”
“No Uiraúna, terra boa, homem de bom coração
A quem eu também queria pedir abissovição (sic)...”
Mas vi um santo gritar forte: “Essa não!”
Eu não sei se era são Pedro ou se é São João,
Mas lá se for para soltar ladrão,
Pode soltar todo mundo, mas o Caninana não.

Joaquim de Bem Vinda, filho de Luís Gomes, a partir dos versos de improviso, conseguiu arrancar, naquele momento, as risadas mais genuínas. Caninana adorou os versos, mas a partir de então, a sua fama correu aquele sertão, de um homem muito vivo, mas que os santos não gostavam não.
Ainda hoje Caninana pergunta: “É um cafinfim feio! Rapaz, e a minha situação, como é que se encontra?”. Joaquim responde: “Pior, você não deixa de roubar, né!”.
É justamente esse jeito debochado, meio que sem polidez, muito peculiar à identidade brasileira, de uma verve pitoresca. Para o trovador popular e matreiro, quase tudo é matéria de inspiração poética, tendo como elemento instigador, muitas vezes, a velha, modesta e boa pinga.
Pois bem, veja outra que aconteceu. Joaquim tinha deixado a mulher e se topou com Marlenor de Antônio de Hermógenes, que em se tratando de mulher também não estava numa boa situação. Ambos ‘puxando’ umas bicadas, um ritual quase cabalístico, no qual surgiam palavras mágicas de improviso, pelas quais podia transfigurar o espectro da rotina.
Eis que vem. Kaboom! Surge como uma explosão que implode os corações. Melhor ri do que chorar. Solicitado pelo colega para compor, dizia “Macaco (era assim que se referia a Joaquim), faça uns versinhos de nós! Vai!”. “Hum, não vou fazer não...”. “Faça, faça...!”. “E se eu fizer do jeito que nós ‘tamo’ você não leva a mal não?” Marlenor confirmou: “Não”. Joaquim se deu por convencido e disse: “Apois (sic) lá vai dedo”:

Ali no Sítio Coati
“Fomu” nascido e criado,
Mas eu num sei o motivo
“Pru” destino ser mudado,
Eu já fui rico fazendeiro
Grande comprador de gado,
Católico, religioso
Na Igreja fui casado,
E hoje “nóis” paga os pecado:
Que é você na lei dos “corno”
E eu dos “amancebado”.

Pilhérias a parte, a poesia popular costumeiramente é astuta, observadora, crítica, fazendo refletir detalhes e nuanças que, muitas vezes passam despercebidas por olhares não menos argutos.
A poesia popular se banha em diversas fontes, até as mais sombrias. Assim aconteceu com Zé Joaquim, que viveu por muitos anos no Sítio Lagoa do Mato, lugar muito aprazível. Sua história é parecida com a de outros Zés, um nome tão comum, sem brasão, uma vida sem glórias. Um homem sem grandes talentos, o prestígio e o império que lhe sobravam era a própria existência.
Até que um dia nem isso resistiu. Deixou a vida sem alarde, sem recomendações, sem declamações, sem acalentos, sem legados, sem aplausos, sem flores, sem quase nada.
Esse caso poderia ser uma continuidade das crônicas jornalísticas da gaúcha Eliane Brum, em A vida que ninguém vê. Semelhanças com aquelas histórias reais pinceladas de literalidade. Aproximação ainda maior com o texto “Enterro de Pobre”, que em um trecho diz: “É necessário compreender que a maior diferença entre a morte do pobre e a do rico não é a solidão de um e a multidão do outro, a ausência de flores de um e o fausto do outro, a madeira ordinária do caixão de um e o cedro do outro. Não é nem pela ligeireza de um e a lerdeza do outro. A diferença maior é que o enterro de pobre é triste menos pela morte e mais pela vida”.
Relata-se que Zé Joaquim só viveu com gente “mais ou menos”. Morou com Antônio Quinco Libânio, Antônio Martins, depois com Chico Bevenuto. E quando ele morreu, num fim de tarde, estava seu corpo deitado num canto do chão, sobre uma velha esteira de palha, coberto com um lençol. Logo veio a noite e a escuridão, o poeta imaginou aquela situação e lançou mão de três estrofes para contar a situação, a diferença entre o rico e o pobre e o poder da natureza:

A pessoa quando é rica
É coberta de beleza
Nunca tem pena do pobre
Da fome e da nueza
Nunca pensa em ser pequeno
E só magina na grandeza.
Mas não sabem que termina
Numa cama de tristeza
Da morte sente o funério
Vai viver no cimitério
Sozinha num casério
Na mais fria profundeza
Pra saber o quanto é grande
O poder da natureza.

Eu digo:
É uma casa de pobreza
Disso eu tenho a realeza
Vive tudo no escuro
Num tem uma luz acesa
Nem tem almoço nem janta
Nem tem cama nem tem mesa
E lá é tudo dum tamanho
Não tem quem fale em riqueza
Pra saber o quanto é grande
O poder da natureza.

Morre um rico de bravura
Deixa tanta doçura
Bota um pobre na amargura
E não sabe o que é o mé
Mas lá no mundo de Deus
Não tem santa num tem briga
Nem dança nem arrasta-pé
Só tem que cumprir a pena
Do jeito que Deus lhe der
Pra não ficar na tristeza
Mas sabendo o quanto é grande
O poder da natureza.

O poema de Joaquim Bem Vinda faz uma bela reflexão entre a vida e a morte, o material e o espiritual, o sagrado e o terreno. Nesse mesmo assunto Ariano Suassuna, em O Auto da Compadecida, através do personagem Chicó, também mostrou o quanto é grande o poder da natureza, fazendo a sociedade refletir um pouco mais sobre comportamentos egocêntricos, egoístas e individualistas: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”.
Na poesia é possível matar até a própria morte. O poder das palavras nos transforma em heróis, possibilita que nos tornemos outros seres, outros personagens, fazendo da criação e da imaginação aliados para uma viagem de aventuras e descobertas.
Assim foi. Joaquim contava que quando Dona Candinha (avó de Valter Sandi e mãe de Vicente Bevenuto) faleceu foi um sentimento geral, pois ela era uma pessoa muito querida. Quinze dias após o falecimento Joaquim sonhou com uma senhora preta, magra, feia, arrodeando a sua rede, perguntou: “Quem é a senhora?”. Ela disse: “Eu sou a morte”. “Mas aqui não tem ninguém doente”. “É, mas fui eu que levei Dona Candinha”! Depois do sonho, na manhã do dia seguinte, Joaquim olhava a mulher puxar as cinzas, compondo o fogo para fazer o café, então criou os seguintes versos:

Foi um sonho que sonhei
Agora de madrugadinha
Parece que tudo enfim
O meu pensamento advinha.
E nesse sonho eu vi a bruxa
Que levou nossa vizinha
E eu pra me ver livre dela
Rezava uma ladainha.
E no meio da forte prece
Me chegava uma santinha
Com o rosário na mão
E na outra uma espadinha.
E dizia: “Mata essa monstra,
Bicha cara de murrinha”.
E eu me cresci contra ela
E vejo o quanto eu sou forte
Acabei com seu esporte
Essa noite eu matei a morte
Que matou Dona Candinha.


A arte das palavras que converte a mais simples cena humana em um espetáculo de sons, rimas e significações que ultrapassam e ressignificam a realidade. Uma arte. Umberto Eco definiria: “o efeito poético como a capacidade que um texto oferece de continuar a gerar diferentes leituras, sem nunca se consumir de todo”.
* Texto publicado no livro Luís Gomes: a terra e o povo de Luís Gomes entre prosa e poesia”.
* Autoria de Antonio Roberto Fernandes do Nascimento.

MAESTRO JOÃO BATISTA FERREIRA

Luís Gomes/RN - No ano de 1962, estava na cidade de Mossoró fazendo uma apresentação, como integrante da Banda de Música da Policia Militar, pois naquele tempo era Sargento da mesma. As apresentações eram organizadas pelo governo de Aluísio Alves, que no tempo de sua candidatura havia feito acordos com os chefes políticos de levar aos municípios (dentre eles Mossoró) uma Sede de Banda de Música.
Neste evento inaugural estavam vários prefeitos e autoridades, dentre eles, Padre Raimundo Osvaldo Rocha, então padre da paróquia de Senhora Santana em Luís Gomes, acompanhado de Guilherme Rocha e Manoel Vieira, conhecido como Tintin, que na época era motorista da Paróquia, o qual se tornou um grande amigo e meu compadre, pelo qual tenho uma enorme consideração.
Terminada a apresentação o regente da banda veio me entregar um bilhete a mando de Aluísio Alves, com a proposta de vir para Luís Gomes, formar uma banda de música na terra de Santana. Aceitei logo de cara, no momento era rapaz solteiro, “doido” para conhecer outras cidades, e a oportunidade batia na porta, não pensei muito e na mesma noite segui para Luís Gomes, numa noite de grande chuva, estradas esburacadas, o Jipe da paróquia quase não chega à Serra.
Chegando a Luís Gomes, abri as inscrições para a Banda que seria da paróquia. Muitos se inscreveram, mais de 70, havendo, entretanto, algumas desistências no começo, com alegação de ser difícil, ou por não ter tempo suficiente, visto que vários tinham que trabalhar muito.
Mesmo assim ficou 25 alunos, um número suficiente para formar a banda. Muitos desacreditaram, faziam chacotas, perguntavam em tom de ironia “E aí Maestro, sai ou não sai?” Eu, com muito entusiasmo, respondia: “Tenham um pouco de paciência que sai”. As dificuldades eram muitas, mas a vontade de ver a banda formada e tocando bem era maior.
Depois de seis meses da minha chegada foi inaugurada a banda que muitos desacreditavam e está até hoje em atividade. A data da inauguração foi escolhida pelo Padre Raimundo Osvaldo, sendo o dia 06 de maio de 1962, como forma de homenagem as mães do município. Era o Dia das Mães. 
O primeiro fardamento da banda foi conseguido por meio de doações de algumas mulheres, que receberam o titulo de madrinhas da banda.
Sendo hoje chamada de Banda de Música Dr. Vicente Fernandes Lopes, como forma de agradecimento a um médico da cidade que deu muito apoio a banda, o qual doou os primeiros instrumentos da banda.
Agora falando um pouco sobre Luís Gomes, cidade bastante acolhedora de um povo bom e hospitaleiro, que mesmo com as dificuldades da época as pessoas viviam felizes. A estrutura era pouca, não tinha calçamento, a energia era de um pequeno motor que funcionava até às 22 horas. Quem tinha o controle da máquina era o Senhor Otílio, a quem tenho muita lembrança. Na época também era cabeleireiro, com o seu ponto comercial no Mercado Público, um senhor cheio de prosa, brincava com quem chegasse.
A população era pequena, crimes como assalto não se conhecia, algumas brigas terminavam em tragédia, mas só por ignorância. Não se via drogas ilícitas circulando. Jovens eram em suas casas e sítios trabalhando para ajudar no sustento da família. Mudanças vêm tomando conta não só de Luís Gomes, mas do mundo inteiro. Mudanças, em certos pontos, negativas. Mesmo assim, foi em Luís Gomes que fiquei e escolhi para criar minha família e onde resido até hoje. E me considero filho adotivo da Serra de Senhora Santana.
Colaboradora: Thaciane Ferreira.

ELEIÇÕES MUNICIPAIS EM 2018

Luís Gomes/RN – A Comissão de Constituição e Justiça, do Senado Federal, aprovou proposta do senador Renan Calheiros (MDB-AL) dentro da chamada reforma política, a controversa unificação das eleições. De acordo com esse entendimento, tanto as eleições gerais como as municipais devem ocorrer em 2018.
Se aprovada em mais duas votações no Senado, o que deve provavelmente ocorrer pela coalizão política, os atuais mandatos de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores se encerram no próximo ano.
Assim, as eleições serão unidas no ano de 2018. Os prefeitos e vereadores eleitos em 2016 terão um mandato “tampão”,  de apenas dois anos. Em 2018, então, todos os cargos eletivos disputarão, em um mesmo pleito as eleições gerais.
A comissão ainda decidiu, mesmo com as críticas, manter a reeleição no país, assim como os mandatos de quatro anos para os cargos eletivos. As datas para as posses também foram alteradas, sendo de prefeito em 05 de janeiro, governador em 10 de janeiro e presidente da República em 15 janeiro.
Os próximos capítulos dessa história prometem e, certamente, devem agitar os bastidores políticos, principalmente dos municípios. Em se tratando de algo inusitado, a definitiva aprovação da unificação das eleições pode reconfigurar o foco das administrações, acirrar discursos, promover novos debates e redefinir novas estratégias. Vamos aguardar...

BONFIM DA PRAÇA

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida (Vinicius de Moraes).
Recordo-me com firmeza a figura de um homem irrequieto, com certa dificuldade no caminhar, óculos tipo “fundo de garrafa” protegido por um cordão que dava a volta por trás do pescoço, mãos expressivas de quem muito batalhara na vida. Vestia-se com trajes típicos, camisa social de maga curta, calça social simples. Em ocasiões especiais, não dispensava um bom terno e gravata.
Voz arrastada e levemente rouca causava alguma dificuldade de entendimento, principalmente quando pronunciava as palavras de forma mais contínua e apressada. O boné quase nunca saia de sua cabeça, escondendo parte dos cabelos já esbranquiçados e da fronte. Rosto com linhas marcadas e olhar quase melancólico. Era o nobre e inculto Bonfim Alves Feitoza.
Um sujeito idiossincrático. Um exemplar único com trejeitos e manias inconfundíveis. Com um jeitão caricato quase sempre mantinha a tranquilidade dos bons costumes, mesmo com os pândegos e chateadores de plantão.
Muitas vezes se refugiava na arte e no entretenimento para vencer a rotina, para reaquecer os sentidos da existência. Tornou-se um grande sonhador, um artista da terra. Sonhava com o sucesso, com uma vida melhor, com um mundo melhor...
Contaram-me, certa vez, que Bonfim, mesmo com escassos recursos, com a proximidade das festividades natalinas, gastava todas as economias com presentes e brindes. Vestia-se de Papai Noel e fazia a alegria de muitas crianças. Um ato de espírito elevado, que revelava a sua generosidade e empatia.
Cuidava da Praça Tenente João Felipe com o maior zelo do mundo. Seria para ele o Jardim do Éden. Sempre verde, com os pés de Groselha, canteiros e gramados bem tratados. Espantava os meninos traquinos que tentasse violar aquele lugar extraordinário. Era um fiel vigilante e zelador daquele largo. Foi delegado (autarquia que lhe rendeu algumas chamuscadas de alguns hostis) da cidade imputado e designado por Jáder Torquato que tinha por ele grande amizade.
Um aventureiro que poderia ser um Dom Quixote de La Mancha, um Chicó, ou quem sabe um famoso cantor. Um polivalente. Fã incondicional de Sidney Magal fazia apresentações imitando o ídolo. Mesmo com a excentricidade e extravagância era um showman. Justamente. Desse lado folclórico e debochado surgiram algumas pilhérias, anedotas e brincadeiras com a sua pessoa.
Veja essa patuscada. Movido por forte paixão e incentivado por Jáder, Bonfim passava o dia concentrado para se apresentar como Sidney Magal no Mercado, com palco, figurino e tudo. Vestia-se com uma camisa amarela de babados nos punhos, calça de cetim preta com fivela de strass e sapato com salto carrapeta. A canção mais pedida pelos partidários e uma das preferidas dele tinha como refrão:

Ohhhh, eu te amo
Ohhhh, eu te amo meu amor 
Ohhhh, eu te amo
O meu sangue ferve por você.

Evidente, por não saber as letras de có ou pelas interrupções dos presentes quase nunca concluía a canção. Das interferências dos mariolas tem-se notícia de arremesso de tomates e ovos, disparo de traques, derrubada do palco e outras mais. Uma joça total. Risos longevos. Mais parecia o show dos Trapalhões.
No Estádio Nia Torquato, Ismar Ferreira que se abnegava pelo futebol da cidade, comandando o 26 de Julho Esporte Clube, dizia: “Ei, cara de atoleiro!” Bonfim respondia: “Sou cara de ‘torero’, mas num sô ladrão de perativa” (cooperativa). Apenas uma forma de gracejo à moda masculina?
Além de tudo, Bonfim foi o protagonista do filme “As Trapalhadas do Lampião”, um longa metragem eminentemente cômico. Algo impensável para época e para os recursos tecnológicos aqui existentes, produzido por Kodak Vídeo Foto e dirigido pelo luís-gomense José Nairton da Silva, filho do fotógrafo Francisco Vieira da Silva, Seu Tintim.
As gravações aconteceram no sítio ‘Butiquim’, na Lagoa de Cima e na Vila Aparecida, sempre nos finais de semana. Este último cenário representava o vilarejo de Jeremoabo/BA. Bonfim representava Lampião e Zeneide, Maria Bonita. Manoel Catingueira era Jararaca e Deda, Pinga Fogo. Linaldo era Curisco e Zé Moreno, Mergulhão. Ainda tinha Marcos (Cajarana), Joaquim (Gavião), Negão (Sabonete), Francisco Fontes (Sipó de Fogo), Francisco de Bil (Antonio de Graça), Tuica (Labareda), Guerreiro (Dois de Ouro), Zezão (Alfinete), Toba (Barra Mansa), Francisco Jesus (Trovão), Vadim (Candieiro), Neca de Luca (Chá Preto), Marcondes (Cobra Verde), Satonha (Joana Bezerra), Curica (Feliciano) Domingos Neto (Tenente Zé Rufino), Jackson Alves (Inglês), Ananias (Governador), entre outros.
Numa das gravações, um cangaceiro pegou uma espingarda para atirar no bando inimigo, mas para surpresa geral, o disparo foi real, com chumbo para valer. Para o bem dos atores o tiro foi um pouco para cima. Na madeira de uma árvore próxima se via a marca vivaz do estampido.
Diz-se também que nos ensaios para as gravações do filme, narrativa de bastidores, ocorreu uma cena engraçadíssima. Naquele momento, pediu-se a Bonfim Alves, estrela da produção cinematográfica, para dizer: “Eu sou Lampião, o maior cangaceiro do Cangaço!” Depois de meia hora de ensaio para decorar o texto, perguntaram: “Bonfim, decorou?”. Conferiu: “Sim”. Nairton então disse: “Gravando!”. Bonfim, compenetrado, em alto e bom som retumbou: “Eu soi (sou) é Lampião, o maior cangueiro (cangaceiro) do Cangaço!” Ninguém se segurou... O episódio foi adicionado ao filme, aproveitando os “cacos”, ou seja, os improvisos das cenas.
Enfim. Alguns anos depois ele nos deixou. Sem Bonfim o município perdeu um pouco da graça, da genialidade e da arte. Deixou-nos aos 54 anos, quando as cortinas do sol se abriram, lá estava ele, frígido, cadavérico, sobre um banco da calçada.